quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

terceira pessoa LXIX

tem um menino que eu gosto de olhar pela janela. calço minhas sapatilhas de ballet e fico na ponta dos pés sem me cansar. sem dançar, sem fazer barulho. ele quer ser motorista de ônibus quando crescer. senta no balanço de jardim e dirige por todo o mundo. têm sempre as mãos firmes no volante que só ele vê. tem sempre um destino secreto que é só dele.

tem um menino que eu gosto de olhar. procuro meu vestido rodado, o mais rendado, o mais bonito. subo no banco que arrasto da cozinha e vejo pela janela entreaberta. ele canta todas as canções dos discos deixados pelo seu avô. segura uma vassoura gasta todo pomposo, mas desafina no refrão. pisca para as margaridas espalhadas por todo o quintal, mas nunca me vê. canta os boleros que seu avô gostava e que ainda não pode entender. e como é bonita a sua saudade. e como eu gosto de ver esse menino cantar.

tem um menino que eu gosto. acordo minha boneca de estopa, conto um segredo. que eu queria com ele viajar, pra qualquer lugar que ele quisesse ir. escondida atrás das cortinas, assobio aqueles boleros melancólicos como se fossem canções de ninar. deixo minha boneca com seus olhos cansados na minha cama e volto pra espiar. ele fica entretido até anoitecer.

ele tenta desfazer os nós de marinheiro que seu pai fez antes de ir trabalhar. alguns ele consegue. ele espera o pai chegar da loja de discos. o pai volta, coloca o guarda-chuva no mancebo, joga o jornal na mesa de centro, dá um beijo na mãe e vai pro quintal avisar que o jantar está quase pronto. os dois se abraçam. o pai conta sua história preferida. aquela da chuva, aquela da âncora, da menina. da menina bonita. tem um menino que eu gosto. um menino que sonha com a menina bonita.

eu perco a fome e tento dormir sem encostar na comida.

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