segunda-feira, 27 de outubro de 2014

jardim de inverno

ela colocou o buquê
na geladeira

quase pequenos girassóis
as margaridas
amarelas

envolvidas pelo celofane
transparente

dentro da geladeira
enferrujada

duraram tanto
até serem esquecidas
nunca sentidas
nunca vivas

as margaridas

mesma história teve
o ramalhete de rosas
vermelhas
o vaso com crisântemos
brancos



talvez sejam lembradas

um dia

domingo, 12 de outubro de 2014

sobre maçãs e professoras

ela descobriu que sou uma formiga. ela é pequena, tem a voz baixa e fininha. e se enrola inteira quando falo com ela. uma tatu-bolinha. ela me deu três presentes, um por semana. às terças-feiras. falava alguma coisa que não ouvia, saia correndo e se escondia atrás da sua cadeira. ganhei um pedaço de bolo de chocolate, um de cenoura e outro de fubá. acho que eles ficaram mais doces com as mordidas que ela dá antes de me presentear.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

meu peito
pulmão, artéria e coração

um gemido

é sustenido

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

alguém termina de ler a história, fecha o livro que coloca no criado-mudo. faz um cafuné, dá um beijo de boa noite, apaga o abajur, fecha a porta com cuidado. uma noite estrelada. crianças em volta de uma fogueira tentam adivinhar o próximo passo do herói. grilos cantam como se rufassem os tambores.

a primeira lembrança que tenho de literatura não tem voz, não tem cheiro, páginas amareladas ou dedicatória.

lembro da estante onde ficava a coleção preferida da minha mãe. as lombadas dos livros formavam ondas. um mar vermelho na segunda prateleira de cima para baixo.

eu só queria saber o que tinha lá.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

domingo, 7 de setembro de 2014

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

como em todas as portas dos nossos infernos sociais, havia de toda gente, de várias condições, nascimentos e fortunas. não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a moléstia passam também a rasoura pelas distinções que inventamos.

o triste fim de policarpo quaresma, lima barreto

quinta-feira, 24 de julho de 2014

terceira pessoa LXXXIII

os ônibus da linha sete quatro meia agá não operam mais com cobradores. a mulher que carrega sacolas dá uma nota de dez reais pro motorista liberar a catraca. não espera o sinal fechar, reclama o troco. o ônibus diminui a velocidade e o motorista confere as moedas antes de trocar a marcha. ele troca festivos filha da puta com colegas que encontra pelo trajeto na direção contrária. a mulher passa a catraca e namora a cadeira do cobrador. não tem coragem de sentar no único lugar vazio e espera alguém se oferecer pra segurar suas sacolas. o motorista assobia gostava tanto de você da giovanni até a raposo. o penúltimo passageiro pede pra descer no próximo ponto. a mulher dorme, as sacolas sentadas ao seu lado. ela vai descer no ponto final.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

abacaxi

sumo porque gosto de sumir. porque posso. porque prefiro o suco à fruta em si. porque às vezes sumo até de mim. e no fundo, lá no fundo, bem pro fundo, não tenho vontade de resistir. digo que não importa, que pode bater a porta. que não estou morta, que entorto mais ainda as costas. que passo por baixo, que espio por cima, que cutuco a fechadura, que não pra mim não dura. que taco fogo, mas não jogo jogo de regras que não entendi. que talvez desista, sem deixar nenhuma pista. porque, em suma. muda o tempo, muda o cenário. eu muda. planto uma dúvida. a história a repetir. e por fim. no fim do gesto, no resto do sim. eu gosto mesmo é de suco de abacaxi.

sábado, 12 de julho de 2014

segunda-feira, 7 de julho de 2014

minha avó procurou a oração da novena de santo antônio que fez antes de conhecer meu avô, não encontrou. ela me deixou o espelho da sala de jantar, a máquina de costura com pedal e xícaras de porcelana chinesa casca de ovo. dela roubei um baleiro, um bolero de tricot amarelo e dois bilhetes. um pedido e um convite. um pedido pra me acordar cedo, um convite pra uma partida de buraco. minha irmã e meu vô contra eu e minha vó. a parceria nunca mudava e eu sempre perdia. minha vó cismava em fazer canastra real e meu vô batia antes que ela baixasse as cartas. passei quase todas as férias de julho da minha infância na casa deles, no jaçanã. minha avó passava a maior parte do tempo na cozinha. o fogão de lá tinha asas e a geladeira todos os doces preferidos das netas. meu avô ficava na poltrona. lia o dia inteiro. a televisão só era ligada pro futebol e pra novela. os brinquedos amanheciam na estante do quarto da minha bisavó. no fim da tarde, estavam espalhados pelo apartamento inteiro. a gente guardava tudo antes do banho que vinha antes do jantar. o prédio tinha lixeiras nas paredes, o condomínio um parquinho com uns três brinquedos enferrujados e um tanque de areia. o parque era vazio. as crianças gostavam de brincar na garagem e lá a gente não podia. eu e a minha irmã brigávamos muito. meu avô ficava bravo, suava, passava um lenço na testa e dizia que ia contar pros nossos pais e que eles iam ficar tristes. minha mãe ligava todas as noites. minha mãe diz que nos tempos de bela vista, que nos tempos da infância dela tudo era decidido pela minha avó. acho engraçado. não consigo achar pulso firme naquele coração que conheci mole. pai? posso isso, posso aquilo? posso? posso? pergunta pra sua mãe – era a palavra final do meu vô. amanhã meu avô faria 96 anos. lembro que implicava com os lóbulos da orelha dele e que ficava cutucando. ele não reclamava, achava graça. eu só parava quando cansava.  quando me cansava, gostava de contar as bolinhas do teto do fusquinha dele. ele era silencioso, mas sempre aumentava o rádio na mesma música. até batucava o volante esperando minha vó voltar da feira.




quarta-feira, 18 de junho de 2014

uma obsessão: unhas.

voltou de viagem. o rosto tão vermelho quanto as unhas. maços vazios, chicletes de menta. cabelo curto, salto alto. tem cheiro de livro novo. a vida toda pela frente.

(23/10/2013)

patavinas II

perguntaram dela. mas disseram pra esperar uma hora, ligar terça-feira, voltar na próxima semana. disseram também que camomila faz bem. e alguns provérbios. alguns impropérios. ela acha caro. o preço que se cobra. o aluguel que se paga. as contas em dia. reclama. tem certeza que esqueceu a chave ali na sessão passada. daquele filme. roeu as unhas. não entendeu nada.

(17/1/2013)



exercício 10 - duelo

helena
três quarteirões até o ponto de ônibus. duas conduções. o céu da manhã, frio e bonito. o cansaço maquiado e os sorrisos violentos. bom dia, bom dia. oito horas de trabalho. uma de almoço. três anos na empresa, duas promoções. conheceu marcelo no elevador. distraída com o espelho tirava remelas. ele riu, ela se assustou, ele riu mais ainda e tirou um cílio esquecido em sua bochecha. ela virou o rosto que coube perfeitamente em sua mão.

irene
prometeu para a base que escondia suas olheiras que não sairia pela terceira vez naquela semana. fumou um último cigarro, jogou a bituca pela janela. lembrou de beber água antes de dormir, mas esqueceu de tirar a maquiagem. cinco trabalhos em dois anos. não era freelancer. conheceu marcelo na fila do supermercado. ela, toblerone, amendoim, uma coca-cola, três heinekens. tudo pendurado nas suas mãos, nas suas unhas pintadas de preto todas descascadas.

marcelo
não parecia um psicopata de film noir. nem um bon vivant da nouvelle vague. gostava de rock progressivo e novela. gostava de mulheres também. era concursado e nunca reclamou do azar. colecionava aeroplanos de madeira e comia gemada todas as manhãs. mas também nunca teve sorte. nem nessa história, em que tudo ia bem até uma hora.

grampos
helena descobriu um grampo. marcelo achava que era dela. helena detestava grampos. e era morena. jamais usaria um grampo dourado. helena esqueceu um rímel no armário do banheiro. de propósito. e por semanas continuou a buscar grampos. em vão. marcelo tinha uma faxineira. faxineira e cúmplice.

esteira de palha de banana
marcelo e helena liam no parque. vinho, jornal e livros. às vezes um sorvete. riam da coceira da esteira de palha de banana que helena adorava.

dezessete e cinquenta para cada
irene gostava de falar e apresentava bandas novas para marcelo. compravam cerveja, pediam pizza e dançavam na sala. dividiam todas as contas e os dias chegavam antes do sono.

a hora maldita
irene encontrou o rímel no armário quando achou que já poderia deixar sua escova de dentes na casa de marcelo. não perguntou nada. escovou seus cabelos loiros com força no sofá de courino preto e não disse nada. apenas deixou sua escova de cabelo no lugar do rímel, que levou pra casa. natura. riu do tipo de mulher que compra natura de catálogo, no cabeleireiro.

marcelo não viu. a faxineira faltou. marcelo não sabia o que dizer. helena cobrou, helena gritou, helena chorou. a escova, os grampos, os fios de cabelo. dourados, reluzentes. prometeu nunca mais voltar e aos berros foi embora.

helena voltava todos os dias para a rua de marcelo. e esperava na esquina. não precisou de mais de uma semana.
jogou pedras no carro de irene.

irene riu. riu de marcelo. riu de helena. e exigiu que marcelo consertasse seu carro. ele achou justo. com uma calma forjada, irene continuou falando da carreira solo de algum vocalista e como se nada tivesse acontecido, tentou mais uma vez. mas marcelo não conseguiu. virou para o lado e não dormiu.

irene não fez barulho para ir embora.

(25/9/2011)



terceira pessoa V

_seu quarto fica no primeiro andar. última porta à esquerda. - disse a recepcionista de unhas longas e coloridas que folheava a revista sem interesse. a decoração era impessoal. não tinha a cortina com estampa de carrinhos de corrida, nem o exército de plástico na escrivaninha. o armário cheirava mofo. o criado-mudo acumulava poeira e guardava uma bíblia amarelada. o ventilador fazia barulho e por isso preferiu abrir uma das janelas. os lençóis e as toalhas dobrados em cima do colchão onde jogou a mala que nunca foi desfeita. era desconfortável o suficiente pra ele que, melancólico, fixou o olhar no avermelhado do trânsito. sabia que não podia mais brincar. o único quintal que ainda restava era o mundo, que não tem tempo pro perdão.

(26/12/2009)



outra

quando desaparecer gostaria que lembrassem apenas das unhas insistentemente vermelhas, da mania de água com gás, da vida vivida à gripe, do cinema, da pilha de livros ao meio, da trilha sonora para o tempo perdido. do resto se despeçam. não volta mais.

(8/8/2008)

sábado, 7 de junho de 2014

quinta-feira, 5 de junho de 2014

As grandes punições

Foi no primeiro dia de aula do Jardim da Infância do Grupo Escolar João Barbalho, na Rua Formosa, em Recife, que encontrei Leopoldo. E no dia seguinte já éramos os dois impossíveis da turma. Passamos o ano ouvindo nossos dois nomes gritados pela professora - mas, não sei por quê, ela gostava de nós, apesar do trabalho que lhe dávamos. Separou nossos bancos inutilmente, pois Leopoldo e eu falávamos lá o que falávamos em voz alta, o que piorava a disciplina da classe.

Depois passamos para o primeiro ano primário. E para a nova professora também éramos os dois alunos impossíveis. Tirávamos boas notas, menos em comportamento.

Até que um dia apareceu na classe a imponente diretora que falou baixinho com a professora. Vou contar logo o que realmente era, antes de narrar o que realmente senti. Tratava-se apenas de fazer o levantamento do nível mental das crianças do Estado, por meio de testes. Mas quando as crianças eram, na opinião da professora, mais vivas, faziam o teste em ano superior, porque no próprio ano seria fácil demais. Tratava-se apenas disso.

Mas depois que a diretora saiu, a professora disse: Leopoldo e Clarice vão fazer uma espécie de exame no quarto ano. E levei uma das dores de minha vida. Ela não explicou mais nada. Mas os nossos dois nomes de novo citados juntos revelaram-me que chegara a hora da punição divina. Eu, apesar de alegre, era muito chorona, e comecei a soluçar baixinho. Leopoldo imediatamente passou a me consolar, a explicar que não era nada. Inútil: eu era a culpada nata, aquela que nascera com o pecado mortal.

E de repente eis-nos os dois na sala do quarto ano primário, com crianças grandalhonas, professora desconhecida e sala desconhecida. Meu pavor cresceu, as lágrimas me escorriam pelo rosto, pelo peito. Sentaram-nos, Leopoldo e eu, um ao lado do outro. Foram distribuída folhas de papel impresso, ao mesmo tempo que a severa professora dizia essa coisa incompreensível: - Até eu dizer agora!, não olhem para o papel. Só comecem a ler quando eu disser. E no instante em que eu disser chega!, vocês param no ponto em que estiverem.

Recebemos as folhas. Leopoldo tranquilo, eu em pânico maior ainda. Além do mais eu nem sabia o que era exame, ainda não tinha feito nenhum. E quando ela disse de repente “agora”, meus soluços abafados aumentaram. Leopoldo - além de meu pai - foi o meu primeiro protetor masculino, e tão bem o fez que me deixou para o resto da vida aceitando e querendo a proteção masculina - Leopoldo mandou eu me acalmar, ler as perguntas e responder o que soubesse. Inútil: a essa hora meu papel já estava todo ensopado de lágrimas e, quando eu tentava ler, as lágrimas me impediam de enxergar. Não escrevi uma só palavra, chorava e sofria como só vim a sofrer mais tarde e por outros motivos. Leopoldo, além de escrever, ocupava-se de mim.

Quando a professora gritou “Chega!”, minhas lágrimas ainda não chegavam. Ela me chamou, eu não expliquei nada, ela me explicou sem severidade que as crianças mais vivas de uma turma etc. Só fui entender dias depois, quando sarei. Nunca soube do resultado do teste, acho que nem era para sabermos.

No terceiro ano primário mudei de escola. E no exame de admissão para o Ginásio Pernambucano, logo de entrada, reencontrei Leopoldo, e foi como se não nos tivéssemos separado. Ele continuou a me proteger. Lembro-me de que uma vez usei uma palavra qualquer de gíria, cuja origem maliciosa eu ignorava. E Leopoldo: “Não diga mais essa palavra.” “Por quê?” “Mais tarde você vai entender”, disse-me ele.

No terceiro ano de ginásio, minha família mudou-se para o Rio. Só vi Leopoldo mais uma vez na vida, por acaso, na rua, e como adultos. Passáramos agora a ser dois tímidos que viajaram na mesma condução sem quase pronunciar uma palavra. Éramos impossíveis de outro modo. Leopoldo é Leopoldo Nachbin. Eu soube que no primeiro ano de engenharia resolveu um dos teoremos considerados insolúveis desde a mais alta Antiguidade. E que imediatamente foi chamado à Sorbonne para explicar o processo. É um dos maiores matemáticos que hoje existem no mundo.

Quanto a mim, choro menos.

Clarice Lispector

Mas há vida

Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.

A descoberta do mundo. Clarice Lispector.

Desculpem, mas se morre

Morreu o grande Guimarães Rosa, morreu meu belo Carlito, filho de meus amigos Lucinda e Justino Martins, morreu meu querido cunhado, o embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Mozart Gurgel Valente, morreu o filho do Dr. Neves Manta, morreu uma menina de 13 anos do meu edifício deixando a mãe tonta, morreu o meu tonitruante amigo Marino Besouchet. Desculpem, mas se morre.

A descoberta do mundo. Clarice Lispector.

A posteridade nos julgará

Quando for descoberto o remédio preventivo contra gripe, as gerações futuras nunca mais poderão nos entender. Gripe é uma das tristezas orgânicas mais irrecuperáveis, enquanto dura. Ter gripe é ficar sabendo de muitas coisas que, se não fossem sabidas, nunca precisariam ter sido sabidas. É a experiência da catástrofe inútil, de uma catástrofe sem tragédia. É um lamento covarde que só outro gripado compreende. Como poderão os futuros homens entender que ter gripe nos era uma condição humana? Somos seres gripados futuramente sujeitos a um julgamento severo ou irônico.

A descoberta do mundo. Clarice Lispector.

Amor à terra

Laranja na mesa. Bendita a árvore que te pariu.

A descoberta do mundo. Clarice Lispector.

A Revolta

Quando tiraram os pontos de minha mão operada, por entre os dedos, gritei. Dei gritos de dor, e de cólera, pois a dor parece uma ofensa à nossa integridade física. Mas não fui tola. Aproveitei a dor e dei gritos pelo passado e pelo presente. Até pelo futuro gritei, meu Deus.

A descoberta do mundo. Clarice Lispector.

Uma revolta

Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa.

A descoberta do mundo. Clarice Lispector.

Desafio aos analistas

Sonhei que um peixe tirava a roupa e ficava nu.

A descoberta do mundo. Clarice Lispector.

domingo, 1 de junho de 2014

sexta-feira, 30 de maio de 2014

quando eu curtia uma punheta mental e abusava dos jargões acadêmicos. é, faltava um repertório. tinha vinte e poucos.

figuras da alteridade em antonin artaud. minha iniciação científica e meu primeiro salário mínimo. 240 reais.

quando eu curtia uma punheta mental e fazia uma salada de frutas conceitual

a tensão discursiva em monteiro lobato. monografia minha.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

trechos II

art. 1o: as pessoas honradas, forçadas pelo destino a contratar cozinheiras, devem, para sua segurança, tentar contratar pessoas de bons costumes.
a maior parte dos roubos domésticos é fruto do amor.
o amante da cozinheira pode levá-la a fazer muitas coisas.
você conhece a cozinheira, você não conhece o amante. você não tem o direito de proibir que sua cozinheira tenha um amante, pois:
1o: os amantes são independentes das cozinheiras;
2o: ao querer se casar, sua cozinheira está fazendo uso do pleno direito natural;
3o: se ela tem um amante é por uma boa razão.
assim, amantes e cozinheiras são males necessários e inseparáveis.

(...) art.17o: se você alimenta a cozinheira, ela terá o direito de destinar um pouco de seu caldo restaurador ao granadeiro. o mal não está nisso. no fundo, ela desvia um pouco do que lhe é dado. é um sacrifício em nome do amor. o crime consiste em completar o que falta na sopa com idêntica quantidade de água do sena.



balzac. código dos homens honestos

trechos

as histórias não têm apenas princípio e fim, elas são sobretudo o meio, que é o tempo de maior duração, o de se comer juntos uma arroba de sal. esse meio, aldenora não o conheceu com luís, nos poucos dias em que viveram casados, ardidos em paixão, até ele declarar que viver com mulher não era o seu destino. (...)

(...) vale a vontade de quem escolhe, esquivando-se das armadilhas que a vida arma, engendrando um jeito de existir. deixando o tempo criar suas tramas e levando de peito o que é de seu gosto próprio. assim pensava livino, olhando os dois rifles pendurados, com as balas esperando o destinatário.

a escolha. faca. ronaldo correia de brito.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

shhhh

pedi pra minha cabeça.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

conhecia a medida do possível.

sobre livino gonçalves
a escolha. faca. ronaldo correia de brito.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

dos lenços, relógios, sinetes, tabaqueiras, fivelas, carteiras, bolsas, broches etc.

art. 8o: se for a um gabinete de leitura ou a um café, finja que está resfriado, tussa; este estratagema lhe permitirá não tirar da cabeça o chapéu novo.
este conselho é ainda mais útil quando for a um restaurante.

art. 14o: muita gente boa esconde o lenço debaixo do chapéu.

art. 17o: sendo os nossos cinco sentidos um dos bens mais preciosos, desconfie dos guarda-chuvas: um desajeitado pode inutilizar um de seus olhos com a ponta de uma vareta.

código dos homens honestos
ou, a arte de não se deixar enganar pelos larápios
ou, eu nunca ri tanto, balzac.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

o comerciante que ganha 100% rouba; também rouba o fornecedor que paga a trinta mil homens dez centavos por dia, anota os ausentes, estraga o trigo misturando farelo para render mais, vende víveres de má qualidade; outro, queima um testamento; outro, adultera as contas de uma tutela; outro, inventa uma caixa de pensões: há mil maneiras e vamos descrevê-las. o verdadeiro talento consiste em ocultar o roubo sob uma aparência de legalidade: que horror que é apoderar-se do bem alheio, só o que vem de nós nos pertence, eis a grande astúcia.

código dos homens honestos
ou, a arte de não se deixar enganar pelos larápios
balzac

sexta-feira, 16 de maio de 2014

terceira pessoa LXXXII

acorda. convence o relógio que é madrugada. não acende o abajur. uma luz sequer. a ponta dos pés nos azulejos frios. as mãos leves a tatear as paredes. encara a porta da geladeira. como se ruidosa, de filme de casa abandonada. olha pros lados. toda suspeita em fuga é cuidadosa. raspa o pote de sorvete napolitano escondida atrás da mesa. sobra a parte de morango. pra ninguém.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

foucault não previu a volta da punição ostentação

... infernizava a vida do marido com o seu gênio desgraçado, um gênio de trocar o sono da noite pelo prazer de remoer ódios.

o dia em que otacílio mendes viu o sol. faca. ronaldo correia de brito.

domingo, 11 de maio de 2014

la vie en rose XVI

o leite coalha sem que eu queira fazer queijo. e serei eu, com meu nojinho e minha apertada luva cor-de-rosa, que deverei desentupir a pia. o micro-ondas ficará cheirando pipoca queimada a semana inteira. a não ser que siga a orientação do google que me recomenda uma xícara de água com rodelas de limão durante quatro minutos. e não importa a busca que eu faça, não encontrarei nada sobre a potência exata para a pseudolimonada me fazer esquecer da pipoca sabor queijo que nunca - mesmo antes de ser torrada - teve cheiro de provolone. tentar sair da minha própria casa não será tarefa mais simples, já que passarei semanas brigando com o controle remoto do portão. descerei do carro e posicionarei o controle em todos ângulos possíveis. pedirei ajuda para um morador. irei até a câmera de segurança fazer sinais para o porteiro. irei até a portaria. darei umas batidinhas no controle. esbofetearei o infeliz. procurarei procurarei e procurarei. e encontrarei a bateria A23, que não servirá de nada. desistirei para então descobrir que era só dar uma inclinadinha no desgraçado. não. não sei a diferença entre um tomate e um caqui. permanecerei sempre estatelada no sacolão à espera de alguém que comente alguma coisa parecida com "um absurdo o preço desse TOMATE". e continuarei sem saber o que dizer ao caixa que me mostra onde testar a lâmpada. se 110 ou 220. não. nunca vou entender o que leva as pessoas a guardarem a louça que irão usar em questão de horas.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

não mais.

já tanto
de você

no entanto,

não menos
querer
irineia pensava na notícia. a lua era minguante e sua cabeça estava com todo o juízo, os pensamentos em correta ordem. (...) a lua era minguante. irineia podia descansar o corpo dos espinhos das matas, aprumar a cabeça no rumo certo de pensamento certo. (...) irineia partiu logo cedo. cantarolava a cantiga de sempre. galhinhos de manjericão nos cabelos, fitas de cores nos braços, caminharia livre pelas estradas. a lua cheia tardaria.

a espera da volante. faca. ronaldo correia de brito.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

la vie en rose XV

acordo exatamente 5h30. minto. 10 ou 12 minutos depois. nada que me impeça de sair 6h30. no máximo 6h40. quase 2 horas de congestionamento. mais de 1 entre dois quarteirões. uma crise de choro: não posso ficar pro segundo módulo do curso. três lenços, bochechas ruborizadas e óculos escuros. vou embora. um café piche na loja de conveniência. corto o caminho. mais um balde de café na sala dos professores. adianto o trabalho atrasado. a metade. na hora do almoço o site dá pau. não almoço, lavo o rosto e a nuca. cinco aulas sem intervalo: o olho direito começa a latejar às 16h45. volto pra casa. 18h18 na cama. até às 20h. não consigo dormir. o livro parado na página cento e quarenta e um. o texto parado desde vinte e dois de janeiro. certeza absoluta da perda de tempo.

sábado, 5 de abril de 2014

quinta-feira, 3 de abril de 2014

a tristeza é um bichinho, que pra roer tá sozinho e como rói a bandida, parece rato em queijo parmesão.

bom dia, tristeza.
adoniran barbosa.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

você

toda vez que estou a um passo
corro
finjo que alguém me chama do outro lado da rua

segunda-feira, 31 de março de 2014

terceira pessoa LXXXI

pulava os ladrilhos. pisava nos vermelhos, nos amarelos jamais. seguia pessoas. o mesmo ritmo, as mesmas passadas. ele, com uma única diferença. em círculos. a se despistar. ele, a calçada. a tarde toda sem sair do lugar.

domingo, 30 de março de 2014

você está aqui por uma soma errática de acasos e de escolhas, deus não é minimamente uma variável a considerar, nada se dirige necessariamente a coisa alguma, você vive soterrado pelo instante presente, e a presença do Tempo - essa voracidade absurda - é irredimível, como queria o poeta. vire-se. é a sua vez de jogar.

cristovão tezza, o filho eterno.
ouve pela primeira vez rodar a engrenagem poderosa do tempo, e um discreto pó de ferrugem já transparece nos objetos que toca. finalmente, o tempo começa a passar.

cristovão tezza, o filho eterno.