quarta-feira, 9 de abril de 2014

primeira pessoa XVIII

acordo exatamente 5h30. minto. 10 ou 12 minutos depois. nada que me impeça de sair 6h30. no máximo 6h40. quase 2 horas de congestionamento. mais de 1 entre dois quarteirões. uma crise de choro: não posso ficar pro segundo módulo do curso. três lenços, bochechas ruborizadas e óculos escuros. vou embora. um café piche na loja de conveniência. corto o caminho. mais um balde de café na sala dos professores. adianto o trabalho atrasado. a metade. na hora do almoço o site dá pau. não almoço, lavo o rosto e a nuca. cinco aulas sem intervalo: o olho direito começa a latejar às 16h45. volto pra casa. 18h18 na cama. até às 20h. não consigo dormir. o livro parado na página cento e quarenta e um. o texto parado desde vinte e dois de janeiro. certeza absoluta da perda de tempo.

sábado, 5 de abril de 2014

quinta-feira, 3 de abril de 2014

a tristeza é um bichinho, que pra roer tá sozinho e como rói a bandida, parece rato em queijo parmesão.

bom dia, tristeza.
adoniran barbosa.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

você

toda vez que estou a um passo
corro
finjo que alguém me chama do outro lado da rua

segunda-feira, 31 de março de 2014

terceira pessoa LXXXI

pulava os ladrilhos. pisava nos vermelhos, nos amarelos jamais. seguia pessoas. o mesmo ritmo, as mesmas passadas. ele, com uma única diferença. em círculos. a se despistar. ele, a calçada. a tarde toda sem sair do lugar.

domingo, 30 de março de 2014

você está aqui por uma soma errática de acasos e de escolhas, deus não é minimamente uma variável a considerar, nada se dirige necessariamente a coisa alguma, você vive soterrado pelo instante presente, e a presença do Tempo - essa voracidade absurda - é irredimível, como queria o poeta. vire-se. é a sua vez de jogar.

cristovão tezza, o filho eterno.
ouve pela primeira vez rodar a engrenagem poderosa do tempo, e um discreto pó de ferrugem já transparece nos objetos que toca. finalmente, o tempo começa a passar.

cristovão tezza, o filho eterno.

segunda-feira, 24 de março de 2014

ele relembra que gostaria de saber as horas, mas sentiu vergonha de tirar o seu relógio de bolso, preso na cintura da calça surrada a uma correntinha de prata, o toque dândi do candidato a escritor.

cristovão tezza, o filho eterno.
como se sente escritor, vive equilibrado no próprio salvo-conduto, o álibi de sua arte ainda imaginária, o eterno observador de si e dos outros. alguém que vê, não alguém que vive.

cristovão tezza, o filho eterno.

quinta-feira, 20 de março de 2014

terceira pessoa LXXX

o tronco sobre as pernas. a mochila sobre as costas. o fone no ouvido. as pernas cruzadas. um pé enrolado no tornozelo. o outro a batucar. o tênis molhado. o guarda-chuva quase fechado, preso num pulso. a mão a torcer a saia. os ombros encolhidos. o rosto virado para a esquerda. muitas caretas. o tempo fazendo caso. venta, molha. e nada do terminal santo amaro chegar.

terça-feira, 18 de março de 2014

mas a estatística, ele sabe, é uma mera regulamentação do caos realizada numa sala escura por funcionários de má vontade.

cristovão tezza, o filho eterno.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

deitar e rolar

em ponta de faca

dois começos excelentes II

mesmo em maio - com manhãs secas e frias - sou tentado a mentir-me. e minto-me com demasiada convicção e sabedoria, sem duvidar das mentiras que invento para mim. desconheço o ruído que interrompeu meu sono naquela noite. amparado pela janela, debruçado no meio do escuro, contemplei a rua e sofri imprecisa saudade do mundo, confirmada pela crueldade do tempo. a vida me pareceu inteiramente concluída. inventei-me mais inverdades para vencer o dia amanhecendo sob a névoa. preencher um dia é demasiadamente penoso, se não me ocupo das mentiras.

vermelho amargo, bartolomeu campos de queirós

dois começos excelentes I

no final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de emilia. digamos que ela se chama ou se chamava emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando julio. julio e emilia. no final, emilia morre e julio não morre. o resto é literatura:

bonsai, alejandro zambra

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

receita

separe o joio do trigo, a clara da gema. pise em ovos, não procure pelos. não chore pelo leite derramado, procure a nata. faça manteiga. compre limões, faça limonada.

domingo, 5 de janeiro de 2014

terceira pessoa LXXIX

_quando vê galinha pintadinha abre um sorriso de orelha a orelha. - diz a moça de chinelos de salto, shorts justo e blusa larga. trabalha na loja de roupas de surf. usa o horário do almoço para organizar suas festas de fim de ano. hoje tem companhia. segura a pelúcia e espera a vez. a mãe segura o skate. parece mais interessada nos tapetes com desejos de boas festas. lembra das tias que aparecerão na ceia e deixa o presente do neto no balcão.

ele parece cansado de tanto segurar o faqueiro e reclama. a caixa explica que a vendedora é quem deve embrulhar o presente. a loja cheia. ninguém aparece. a moça de chinelos abre a boca para reclamar, mas desiste. o homem coloca o faqueiro ao lado do skate e pede para que alguém resolva a situação ou para que chamem a gerente. olha a moça e diz que vai esperar a vez, que só precisa descansar os braços. a moça sorri. e é encorajada. diz para a caixa que tem pressa.

ela sorri de novo para o homem quando a mãe mostra, de longe, na estante, os dois tapetes escolhidos. ela pede licença e o homem concorda em guardar seu lugar na fila. a fila aumenta. um rapaz, uma jovem e uma senhora. a moça volta, pergunta o que aconteceu. o homem diz que uma atendente foi chamar a gerente. eles conversam.

não, ele não faz o tipo dela, mas é engraçado e ela se sente protegida. a mãe no caixa com os presentes das tias. ela está mais interessada no homem. o faqueiro. seria para a mãe? a gerente chega e começa a embrulhar o skate. a moça vira e sorri, ele sorri de volta. o celular toca, ele pede licença. ela vê a aliança na mão esquerda.

vê a camiseta por dentro da calça, o cinto com fivela dourada, o tênis. o faqueiro de presente para a esposa.

a vendedora da loja de roupas de surf lembra que tem dois filhos para criar, que sabe se defender sozinha. que prefere uma camisola à um faqueiro. e que não confia em gente canhota.

a mãe chega no balcão. descobre que não pode levar papel para fazer o embrulho em casa. a filha reclama. pensa em chamar a gerente, mas está mesmo com pressa. os presentes prontos. elas vão embora. a moça não olha para trás, sabe que não vai mais encontrar com o homem. ela acha as luzes de natal irritantes.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

primeira pessoa XVII

sentei no chão da varanda. horas brincando com a cachorra. minha mãe e minha irmã à mesa, bebiam a última garrafa de vinho comprado para o natal. desviamos e rimos dos insetos. então elas me avisaram que estava na hora de dormir. coloquei a roupa para lavar, lavei as mãos.

minhas mãos tinham o cheiro da minha infância.

sábado, 14 de dezembro de 2013

a coincidência é prima-irmã da confusão, essas duas safadas se beneficiam da mesma condição: do caos, do bendito caos. da mesma forma que não existem confusões quando não acontece nada ou quando tudo está muito quietinho, também não existem coincidências. basta encomendar-se com abandono ao fluxo dos fatos, entregar-se de maneira distraída ao jogo das causas e efeitos, para que as melancias comecem a amadurecer. apesar de nos surpreendermos quando o arbusto se enrosca em nossos tornozelos, ainda assim desfrutamos do suco doce de seus frutos enquanto cuspimos as sementinhas: mas que confusão! (...) quantas coincidências terão se perdido pela falta de atenção de suas vítimas? a vida seria uma festa de coincidências!

se vivêssemos em um lugar normal, juan pablo villalobos

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

o que eu chamo de perfeição

acocorada junto às pedras que serviam de trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, sinha vitória soprava o fogo. uma nuvem de cinza voou dos tições e cobriu-lhe a cara, a fumaça inundou-lhe os olhos, o rosário de contas brancas e azuis desprendeu-se do cabeção e bateu na panela. sinha vitória limpou as lágrimas com as costas das mãos, encarquilhou as pálpebras, meteu o rosário no seio e continuou a soprar com vontade, enchendo muito as bochechas.

vidas secas, graciliano ramos

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

, pois o futuro é como uma mulher com mudanças de humor muito bruscas, que às vezes te diz sim, às vezes que não e muitas vezes nem sabe.

se vivêssemos em um lugar normal, juan pablo villalobos

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

as coisas não querem mais ser vistas
por pessoas razoáveis

elas desejam ser olhadas de azul.

manoel de barros

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

todas as coisas normais eram difíceis pra caralho de conseguir. no colégio, tinham se especializado em organizar genocídios de extravagantes para nos transformar em pessoas normais, era o que nos exigiam os professores e os padres, por que diabos não podíamos nos comportar como gente normal?

se vivêssemos em um lugar normal, juan pablo villalobos

sábado, 2 de novembro de 2013

parafraseando maiakovski

os pés pelos cotovelos, os pulsos pelos joelhos, o nariz pela barriga, o pescoço pelas pernas, os braços pelos pentelhos, os tornozelos pelas mãos.

tudo.

tudo coração.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

gravata

ajeitava o nó na garganta

sábado, 26 de outubro de 2013

vinte e sete de outubro. aniversário do meu amor mais delicioso.

responsabilizam os professores, que, mesmo antevendo todo o fracasso do sistema vigente, continuam amarrados a suas fórmulas, seu discurso conservador e sua eterna capacidade para sentar em cima do próprio rabo e analisar os erros que só os outros cometem.

trecho de uma cadeia de culpados em 'férias na prisão', de lucimar mutarelli

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

voltou de viagem. o rosto tão vermelho quanto as unhas. maços vazios, chicletes de menta. cabelo curto, salto alto. tem cheiro de livro novo. a vida toda pela frente.

i've got mother

terça-feira, 15 de outubro de 2013

"e, desde o começo do segundo ano, ele me determinou de ajudar no corrido da instrução, eu explicava aos meninos menores as letras e a tabuada."

aos amoresmeuzinhos

domingo, 13 de outubro de 2013

gómez é um homem modesto e apagado, que só pede à vida um cantinho sob o sol, o jornal com notícias estimulantes e um milho cozido com pouco sal mas em compensação com bastante manteiga.

cortázar

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

fecho os olhos e aspiro no passado esse perfume da tua carne mais secreta, gostaria de não abri-los neste agora em que leio e fumo e ainda acredito estar vivendo.

cortázar

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

roseirices X: calejar o coração, sorrir a esmo. sobreviver à cidade.

(sertão é onde homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada.

amormeuzinho)

roseirices IX: perder tempo e juízo. sou disso.

(toleima, eu sei. dou, de.

amormeuzinho)

lápide 1



epitáfio para o corpo

Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.


leminski

domingo, 6 de outubro de 2013

ganhou um tênis há duas semanas. até então usava sempre os mesmos pares. uma sandália com um enfeite descolando e uma bota que apertava o calcanhar. ela reclamava todos os dias. e ainda reclama. não do tênis, que parece enfim, ser confortável. diz que está apertada. muito. segura a virilha com as duas mãos. com força. roça um joelho no outro. vai ao banheiro e fica horas em frente ao espelho, depois volta para a sala de aula saltitante e de penteado novo. um lápis dela quebrou na semana passada. ficou mais nervosa do que ficava com o enfeite da sandália. bastou um remendo para que tudo voltasse ao normal. inclina a cabeça para o lado direito, pede coisas. não quer nenhum brinquedo que entrego. quer outro que não sei onde está. puxa o rabo de cavalo, olha o teto. insiste, pede mais. não faz a lição. mas precisa de ajuda, não sabe como entrar na brincadeira. brinca, abaixa a cabeça, olha para mim, esconde o sorriso.

se estou ocupada, roça os joelhos com força, segura a virilha e pede para ir ao banheiro. se não dou atenção, mostra a marca que a bota fez no calcanhar. às vezes eu tento. às vezes não consigo. reclamo que ela não faz a lição e fico brava quando começa a falar do lápis. queria que me entendesse. mas só lembro de dizer alguma coisa quando vejo o esforço que faz para fechar o zíper da mochila. ela para na porta, abaixa o rosto, olha para mim e esconde o sorriso.

acho que me entende.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

sábado, 21 de setembro de 2013

primeira pessoa XVI

é primavera. cantar tim maia a plenos pulmões por entre as seções do supermercado é estar quase feliz.

madrugada

antes tarde, quando arde.