domingo, 22 de fevereiro de 2015

la vie en rose XVIII

celular em casa. nem meia hora folheando uma revista feminina de julho do ano passado. a tendência college. a combinação infalível de preto e rosa no underwear. o depoimento da leitora que trocou o amor de sua vida por um homem rico. a matéria sobre como romper um namoro de forma saudável com exemplos de mulheres que conseguiram continuar amigas do ex. não é pra mim. meia de lã até o joelho e saia plissada. renda na calcinha. trocar o marido pelo chefe. de uma relação conseguir sair ilesa.

enfim o rápido atendimento. tive dez dias para questionar a vistoria inicial. segundo o laudo, assinado por mim, o imóvel para locação estava com a pintura nova. desta forma, a vistoria final pede para que eu pinte o apartamento entregue. até dia 27 posso resolver tudo. claro. bom sábado pro senhor também. até lá tenho um coelho de chocolate, tenho diletto, tenho nutella. um cifão e um filtro também. mas o zelador avisa que pra instalar o filtro é necessário trocar a torneira.

não vou almoçar com meus amigos. ignoro as mensagens. deixo o telefone esquecido em algum lugar da cama. quero me desfazer de todas as caixas empilhadas na sala, essa sim, com pintura nova. no fim da tarde tudo está organizado nas prateleiras. poesia, contos, romance, psicologia, linguística. saio do banho. reviro a gaveta atrás de uma calcinha. nada de renda. meu espartilho é outro. escreveria assim meu depoimento na revista feminina. compro linguiças finas cozidas e defumadas, água mineral, salompas. até sexta-feira tenho três temporadas de breaking bad. dessa fase ruim, dela sim, pretendo sair ilesa.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

questões abstratas. teoremas metafísicos insolúveis. a poesia de fundamentar uma epistemologia. tudo. tudo menos mazelas cotidianas. esses pequeninos contratempos dessa tal ordem prática. sempre tão possíveis. sempre tão fáceis. um ônibus biarticulado, uma baliza. assim me soam esses ligeiros obstáculos. mas não. não importam. nenhum desses breves empecilhos. nada. nenhuma dessas dorzinhas de cabeça. nada. perante a beleza dessa água gaseificada tudo perde o sentido. a dança das bolhinhas por todo o copo invade a madrugada. as bolhas. estouram. espirram. mergulham novamente no caos coreografado dessa água. bêbada de cansaço. uma formiga levemente embriagada de inseticida. sim. assim estou. estirada ao lado desse lindo copo d'água. à espera. de questões abstratas. de teoremas metafísicos insolúveis. da poesia de fundamentar uma epistemologia. de tudo. tudo menos

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

caso me livre de mim
me dou por

satisfeita

domingo, 8 de fevereiro de 2015

la vie en rose XVII

posso ouvir as festas. mas minhas fantasias estão guardadas em alguma dessas caixas. assim que terminar de embalar essas xícaras, souvenir de viagens minhas e dos meus, terminarei de encaixotar minha vida. coleções, tranqueiras, quinquilharias. coisas de que definitivamente não lembrava. tudo em compartimentos. livros, discos, sala, cozinha, banheiro. o carreto chega terça-feira. ele é um caminhão que me atropela. estarei mudada até a quarta-feira de cinzas. doarei boa parte dessas histórias. o que me sobrar terá fôlego e folia. não pedirei licença nem desculpas, desfilarei durante toda a quaresma. profanarei a importância de anos passados, serei estandarte de outros que deverão se despedir antes de virarem peso para a próxima mudança. meu grito de carnaval será de janeiro à janeiro. minha vida. minha vida acabará em samba.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

arte não é status social. é necessidade. um artista é tão glorioso quanto um lavrador. e a genialidade é menos importante do que a fome - se é que a genialidade existe. o estômago desconhece.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

tempo: verbo: modo imperativo.
não se iluda. palite os dentes com os ponteiros do seu relógio dourado. cale a boca. perca a hora. desista. a medida não é sua. é do tempo.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

pobre gota d'água
quando não engasga, amarga

seca

ela quer tempestade
escorrer pela cidade

desabar

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

terceira pessoa LXXXVIII

insistiu no encontro. queria a despedida. horário marcado, sorriso reticente, comentários sem importância sobre o dia. descrição pormenorizada sobre o escândalo noticiado na televisão a tarde inteira. fingiu atenção. perguntou. exclamou preocupação. mal anoiteceu, dispensou o adeus. foi embora.
claustrofóbico tecido nervoso. torcicolo digestório. pulsação convulsionária. aorta excretora. tutano melindroso. autopiedade venosa: inesgotável esmorecer.

sábado, 10 de janeiro de 2015

terceira pessoa LXXXVII

o terceiro foi eleito. ao acaso. a agulha deslizou pelo vinil. epistrophy. cozinhou o que sabia. sem muita sujeira, sem muito trabalho. com todo o tempo que precisava. uma coca comprada ainda quente. duas pedras de gelo. repetiu. duas vezes. sangue. carne mal passada. só se levantou pro monk continuar rodando. pernas pra cima das caixas ainda lacradas. acendeu um cigarro. tragava de olhos fechados, fazia anéis de fumaça. não olhou pra frente, não fechou a cortina. a luz do sol refletia na janela do vizinho. lembrava a ressaca. não importava. foi a tarde mais digna que se deu desde que mudou de casa.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

terceira pessoa LXXXVI

da entrevista de emprego saiu confiante. mas atravessou a rua. e afrouxou o nó da gravata. apostou no bicho. na sorte também apostou. só a corretora soube do fim do noivado, da venda do imóvel recém comprado. pra avisar que chegaria atrasado. não ligou. ainda assim decidiu esticar. cedeu ao cansaço do trabalhoso trabalho. e faltou. pela primeira vez em 10 anos. a um mendigo deu seus sapatos. e calçou chinelos. numa agência de viagens passou a manhã. lugares que nunca imaginou. um roteiro impossível até então. do almoço dispensou o café e a sobremesa. marcou a adiada endoscopia, decidiu parar de fumar. 9 de abril de 89. teve seu réveillon particular.

chuva

mais do que na rua
na sala de cinema

(i'm alive)

sábado, 20 de dezembro de 2014

palíndromo

em qualquer sentido. não há nenhum.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

parafraseando gertrude

um grito é um grito é um grito

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

o resto é história

as narrações e os sentimentos expressos neste blog são ficcionais e não representam necessariamente a biografia da autora - que não deve à receita nem à padaria, que não falta ao trabalho nem ao sono; que não apresenta antecedentes criminais, ainda que tenha culpado sua mãe de alguns atos infracionais pra não perder a habilitação. sem fatos que lhe garantam notoriedade, cisma cotidianamente com o tempo - pois discorda.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

quimera
pudera
quem dera
dezembro é uma viagem pra vênus. um dia dura mais que um ano.

desconforto. esse lugar-comum.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

afasia

prosa não. poesia. era pra ser poesia. nada lírica. pra confessar um desejo. que não amedrontasse, que não afastasse. ou sufocasse. um desejo simples. inevitável. como bocejar, espreguiçar. não uma cantada barata em guardanapo de pé-sujo. um poema tão sujo quanto sujo for lamber os beiços.

poderia ser um conto também. não um romance, não uma novela. sim, um conto. nada trágico. sem prólogo, sem choro. nem metafísica, nem propósito, nem importância. fácil. delicioso. como espirrar ou dançar. que não fosse estranho. que soasse familiar. uma lembrança. uma canção de ninar. que não fosse confuso. mas claro. claro como desejar bom dia. que esboçasse um sorriso, um encontro. um ensaio de uma história. uma história de nós dois.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

corra

bilbao, abu dhabi. e bom retiro, terra de sinhô quatrocentão.
alcachofra, cogumelo. vitrine cor de rosa na avenida paulista.
guggenheim, louvre, renner.

o negro em usucapião.

acervo permanente. tendências para a próxima estação.
convite para abertura da exposição. propaganda de mais uma grande promoção no horário nobre.

vallet. cafés de aromas diferenciados, salgados sem glúten. o escambau.
cartão fidelidade. clube de vantagens, catálogo pelo correio, frete grátis. etcétera e tal.

metalinguagem.
moda jovem.



trabalhadores são negros
desempregados são negros
artistas são negros
mulheres são negros

crianças são negros

imigrantes são negros
pobres são negros

afrodescendentes também são



cultura pós-contemporânea escravagista.
corra.
negros em liquidação.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

terceira pessoa LXXXV

ela percebeu que o barulho da chuva no telhado é o mesmo da pipoca feita na panela. e gostou da combinação dos cheiros. da terra molhada. do milho estourado na manteiga. cuidadosa como era, não se queimou. mas nem por isso deixou de se molhar. tirou a tarde chuvosa pra fazer pipoca. uma sinfonia perfeita. sob nenhuma regência.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

lá vai manoel
ainda agora
acaba de inventar um lugar para estar
muito azul

"tudo o que não invento é falso"

"as coisas não querem mais ser vistas
por pessoas razoáveis


elas desejam ser olhadas de azul."

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

terceira pessoa LXXXIV

logo ela. que nunca acumulou a louça. que nunca se esqueceu de regar as plantas. nenhuma dor de cabeça pra família, na escola, no trabalho ou com a síndica. logo ela.

olhou para o relógio três vezes. e ainda assim não foi capaz de reconhecer os ponteiros. tampouco se importaram, as horas pareciam se divertir por voarem tanto. uma caixa inteira delas foi o suficiente. as pílulas, benditas bolinhas coloridas que lhe devolveram o sono. tivesse outra oportunidade, pudesse acordar mais uma vez. não escreveria uma carta. talvez bordasse um pano de prato, talvez o enviasse à madrinha. certeza que acertaria as contas. e não esqueceria de molhar as plantas e não deixaria de guardar a louça. não engoliria todas as bolinhas como se fossem confetes.

papéis coloridos, chocolate e amendoim.

domingo, 9 de novembro de 2014

à baila

que me encontro em mania
e já não harmonizo dois passos seguidos
que chamem de autismo
eu chamo de rodopio

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

jardim de inverno

ela colocou o buquê
na geladeira

quase pequenos girassóis
as margaridas
amarelas

envolvidas pelo celofane
transparente

dentro da geladeira
enferrujada

duraram tanto
até serem esquecidas
nunca sentidas
nunca vivas

as margaridas

mesma história teve
o ramalhete de rosas
vermelhas
o vaso com crisântemos
brancos



talvez sejam lembradas

um dia

domingo, 12 de outubro de 2014

sobre maçãs e professoras

ela descobriu que sou uma formiga. ela é pequena, tem a voz baixa e fininha. e se enrola inteira quando falo com ela. uma tatu-bolinha. ela me deu três presentes, um por semana. às terças-feiras. falava alguma coisa que não ouvia, saia correndo e se escondia atrás da sua cadeira. ganhei um pedaço de bolo de chocolate, um de cenoura e outro de fubá. acho que eles ficaram mais doces com as mordidas que ela dá antes de me presentear.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

meu peito
pulmão, artéria e coração

um gemido

é sustenido

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

alguém termina de ler a história, fecha o livro que coloca no criado-mudo. faz um cafuné, dá um beijo de boa noite, apaga o abajur, fecha a porta com cuidado. uma noite estrelada. crianças em volta de uma fogueira tentam adivinhar o próximo passo do herói. grilos cantam como se rufassem os tambores.

a primeira lembrança que tenho de literatura não tem voz, não tem cheiro, páginas amareladas ou dedicatória.

lembro da estante onde ficava a coleção preferida da minha mãe. as lombadas dos livros formavam ondas. um mar vermelho na segunda prateleira de cima para baixo.

eu só queria saber o que tinha lá.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

domingo, 7 de setembro de 2014

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

como em todas as portas dos nossos infernos sociais, havia de toda gente, de várias condições, nascimentos e fortunas. não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a moléstia passam também a rasoura pelas distinções que inventamos.

o triste fim de policarpo quaresma, lima barreto

quinta-feira, 24 de julho de 2014

terceira pessoa LXXXIII

os ônibus da linha sete quatro meia agá não operam mais com cobradores. a mulher que carrega sacolas dá uma nota de dez reais pro motorista liberar a catraca. não espera o sinal fechar, reclama o troco. o ônibus diminui a velocidade e o motorista confere as moedas antes de trocar a marcha. ele troca festivos filha da puta com colegas que encontra pelo trajeto na direção contrária. a mulher passa a catraca e namora a cadeira do cobrador. não tem coragem de sentar no único lugar vazio e espera alguém se oferecer pra segurar suas sacolas. o motorista assobia gostava tanto de você da giovanni até a raposo. o penúltimo passageiro pede pra descer no próximo ponto. a mulher dorme, as sacolas sentadas ao seu lado. ela vai descer no ponto final.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

abacaxi

sumo porque gosto de sumir. porque posso. porque prefiro o suco à fruta em si. porque às vezes sumo até de mim. e no fundo, lá no fundo, bem pro fundo, não tenho vontade de resistir. digo que não importa, que pode bater a porta. que não estou morta, que entorto mais ainda as costas. que passo por baixo, que espio por cima, que cutuco a fechadura, que não pra mim não dura. que taco fogo, mas não jogo jogo de regras que não entendi. que talvez desista, sem deixar nenhuma pista. porque, em suma. muda o tempo, muda o cenário. eu muda. planto uma dúvida. a história a repetir. e por fim. no fim do gesto, no resto do sim. eu gosto mesmo é de suco de abacaxi.

sábado, 12 de julho de 2014

segunda-feira, 7 de julho de 2014

minha avó procurou a oração da novena de santo antônio que fez antes de conhecer meu avô, não encontrou. ela me deixou o espelho da sala de jantar, a máquina de costura com pedal e xícaras de porcelana chinesa casca de ovo. dela roubei um baleiro, um bolero de tricot amarelo e dois bilhetes. um pedido e um convite. um pedido pra me acordar cedo, um convite pra uma partida de buraco. minha irmã e meu vô contra eu e minha vó. a parceria nunca mudava e eu sempre perdia. minha vó cismava em fazer canastra real e meu vô batia antes que ela baixasse as cartas. passei quase todas as férias de julho da minha infância na casa deles, no jaçanã. minha avó passava a maior parte do tempo na cozinha. o fogão de lá tinha asas e a geladeira todos os doces preferidos das netas. meu avô ficava na poltrona. lia o dia inteiro. a televisão só era ligada pro futebol e pra novela. os brinquedos amanheciam na estante do quarto da minha bisavó. no fim da tarde, estavam espalhados pelo apartamento inteiro. a gente guardava tudo antes do banho que vinha antes do jantar. o prédio tinha lixeiras nas paredes, o condomínio um parquinho com uns três brinquedos enferrujados e um tanque de areia. o parque era vazio. as crianças gostavam de brincar na garagem e lá a gente não podia. eu e a minha irmã brigávamos muito. meu avô ficava bravo, suava, passava um lenço na testa e dizia que ia contar pros nossos pais e que eles iam ficar tristes. minha mãe ligava todas as noites. minha mãe diz que nos tempos de bela vista, que nos tempos da infância dela tudo era decidido pela minha avó. acho engraçado. não consigo achar pulso firme naquele coração que conheci mole. pai? posso isso, posso aquilo? posso? posso? pergunta pra sua mãe – era a palavra final do meu vô. amanhã meu avô faria 96 anos. lembro que implicava com os lóbulos da orelha dele e que ficava cutucando. ele não reclamava, achava graça. eu só parava quando cansava.  quando me cansava, gostava de contar as bolinhas do teto do fusquinha dele. ele era silencioso, mas sempre aumentava o rádio na mesma música. até batucava o volante esperando minha vó voltar da feira.




quarta-feira, 18 de junho de 2014

uma obsessão: unhas.

voltou de viagem. o rosto tão vermelho quanto as unhas. maços vazios, chicletes de menta. cabelo curto, salto alto. tem cheiro de livro novo. a vida toda pela frente.

(23/10/2013)

patavinas II

perguntaram dela. mas disseram pra esperar uma hora, ligar terça-feira, voltar na próxima semana. disseram também que camomila faz bem. e alguns provérbios. alguns impropérios. ela acha caro. o preço que se cobra. o aluguel que se paga. as contas em dia. reclama. tem certeza que esqueceu a chave ali na sessão passada. daquele filme. roeu as unhas. não entendeu nada.

(17/1/2013)



exercício 10 - duelo

helena
três quarteirões até o ponto de ônibus. duas conduções. o céu da manhã, frio e bonito. o cansaço maquiado e os sorrisos violentos. bom dia, bom dia. oito horas de trabalho. uma de almoço. três anos na empresa, duas promoções. conheceu marcelo no elevador. distraída com o espelho tirava remelas. ele riu, ela se assustou, ele riu mais ainda e tirou um cílio esquecido em sua bochecha. ela virou o rosto que coube perfeitamente em sua mão.

irene
prometeu para a base que escondia suas olheiras que não sairia pela terceira vez naquela semana. fumou um último cigarro, jogou a bituca pela janela. lembrou de beber água antes de dormir, mas esqueceu de tirar a maquiagem. cinco trabalhos em dois anos. não era freelancer. conheceu marcelo na fila do supermercado. ela, toblerone, amendoim, uma coca-cola, três heinekens. tudo pendurado nas suas mãos, nas suas unhas pintadas de preto todas descascadas.

marcelo
não parecia um psicopata de film noir. nem um bon vivant da nouvelle vague. gostava de rock progressivo e novela. gostava de mulheres também. era concursado e nunca reclamou do azar. colecionava aeroplanos de madeira e comia gemada todas as manhãs. mas também nunca teve sorte. nem nessa história, em que tudo ia bem até uma hora.

grampos
helena descobriu um grampo. marcelo achava que era dela. helena detestava grampos. e era morena. jamais usaria um grampo dourado. helena esqueceu um rímel no armário do banheiro. de propósito. e por semanas continuou a buscar grampos. em vão. marcelo tinha uma faxineira. faxineira e cúmplice.

esteira de palha de banana
marcelo e helena liam no parque. vinho, jornal e livros. às vezes um sorvete. riam da coceira da esteira de palha de banana que helena adorava.

dezessete e cinquenta para cada
irene gostava de falar e apresentava bandas novas para marcelo. compravam cerveja, pediam pizza e dançavam na sala. dividiam todas as contas e os dias chegavam antes do sono.

a hora maldita
irene encontrou o rímel no armário quando achou que já poderia deixar sua escova de dentes na casa de marcelo. não perguntou nada. escovou seus cabelos loiros com força no sofá de courino preto e não disse nada. apenas deixou sua escova de cabelo no lugar do rímel, que levou pra casa. natura. riu do tipo de mulher que compra natura de catálogo, no cabeleireiro.

marcelo não viu. a faxineira faltou. marcelo não sabia o que dizer. helena cobrou, helena gritou, helena chorou. a escova, os grampos, os fios de cabelo. dourados, reluzentes. prometeu nunca mais voltar e aos berros foi embora.

helena voltava todos os dias para a rua de marcelo. e esperava na esquina. não precisou de mais de uma semana.
jogou pedras no carro de irene.

irene riu. riu de marcelo. riu de helena. e exigiu que marcelo consertasse seu carro. ele achou justo. com uma calma forjada, irene continuou falando da carreira solo de algum vocalista e como se nada tivesse acontecido, tentou mais uma vez. mas marcelo não conseguiu. virou para o lado e não dormiu.

irene não fez barulho para ir embora.

(25/9/2011)



terceira pessoa V

_seu quarto fica no primeiro andar. última porta à esquerda. - disse a recepcionista de unhas longas e coloridas que folheava a revista sem interesse. a decoração era impessoal. não tinha a cortina com estampa de carrinhos de corrida, nem o exército de plástico na escrivaninha. o armário cheirava mofo. o criado-mudo acumulava poeira e guardava uma bíblia amarelada. o ventilador fazia barulho e por isso preferiu abrir uma das janelas. os lençóis e as toalhas dobrados em cima do colchão onde jogou a mala que nunca foi desfeita. era desconfortável o suficiente pra ele que, melancólico, fixou o olhar no avermelhado do trânsito. sabia que não podia mais brincar. o único quintal que ainda restava era o mundo, que não tem tempo pro perdão.

(26/12/2009)



outra

quando desaparecer gostaria que lembrassem apenas das unhas insistentemente vermelhas, da mania de água com gás, da vida vivida à gripe, do cinema, da pilha de livros ao meio, da trilha sonora para o tempo perdido. do resto se despeçam. não volta mais.

(8/8/2008)

sábado, 7 de junho de 2014

quinta-feira, 5 de junho de 2014

As grandes punições

Foi no primeiro dia de aula do Jardim da Infância do Grupo Escolar João Barbalho, na Rua Formosa, em Recife, que encontrei Leopoldo. E no dia seguinte já éramos os dois impossíveis da turma. Passamos o ano ouvindo nossos dois nomes gritados pela professora - mas, não sei por quê, ela gostava de nós, apesar do trabalho que lhe dávamos. Separou nossos bancos inutilmente, pois Leopoldo e eu falávamos lá o que falávamos em voz alta, o que piorava a disciplina da classe.

Depois passamos para o primeiro ano primário. E para a nova professora também éramos os dois alunos impossíveis. Tirávamos boas notas, menos em comportamento.

Até que um dia apareceu na classe a imponente diretora que falou baixinho com a professora. Vou contar logo o que realmente era, antes de narrar o que realmente senti. Tratava-se apenas de fazer o levantamento do nível mental das crianças do Estado, por meio de testes. Mas quando as crianças eram, na opinião da professora, mais vivas, faziam o teste em ano superior, porque no próprio ano seria fácil demais. Tratava-se apenas disso.

Mas depois que a diretora saiu, a professora disse: Leopoldo e Clarice vão fazer uma espécie de exame no quarto ano. E levei uma das dores de minha vida. Ela não explicou mais nada. Mas os nossos dois nomes de novo citados juntos revelaram-me que chegara a hora da punição divina. Eu, apesar de alegre, era muito chorona, e comecei a soluçar baixinho. Leopoldo imediatamente passou a me consolar, a explicar que não era nada. Inútil: eu era a culpada nata, aquela que nascera com o pecado mortal.

E de repente eis-nos os dois na sala do quarto ano primário, com crianças grandalhonas, professora desconhecida e sala desconhecida. Meu pavor cresceu, as lágrimas me escorriam pelo rosto, pelo peito. Sentaram-nos, Leopoldo e eu, um ao lado do outro. Foram distribuída folhas de papel impresso, ao mesmo tempo que a severa professora dizia essa coisa incompreensível: - Até eu dizer agora!, não olhem para o papel. Só comecem a ler quando eu disser. E no instante em que eu disser chega!, vocês param no ponto em que estiverem.

Recebemos as folhas. Leopoldo tranquilo, eu em pânico maior ainda. Além do mais eu nem sabia o que era exame, ainda não tinha feito nenhum. E quando ela disse de repente “agora”, meus soluços abafados aumentaram. Leopoldo - além de meu pai - foi o meu primeiro protetor masculino, e tão bem o fez que me deixou para o resto da vida aceitando e querendo a proteção masculina - Leopoldo mandou eu me acalmar, ler as perguntas e responder o que soubesse. Inútil: a essa hora meu papel já estava todo ensopado de lágrimas e, quando eu tentava ler, as lágrimas me impediam de enxergar. Não escrevi uma só palavra, chorava e sofria como só vim a sofrer mais tarde e por outros motivos. Leopoldo, além de escrever, ocupava-se de mim.

Quando a professora gritou “Chega!”, minhas lágrimas ainda não chegavam. Ela me chamou, eu não expliquei nada, ela me explicou sem severidade que as crianças mais vivas de uma turma etc. Só fui entender dias depois, quando sarei. Nunca soube do resultado do teste, acho que nem era para sabermos.

No terceiro ano primário mudei de escola. E no exame de admissão para o Ginásio Pernambucano, logo de entrada, reencontrei Leopoldo, e foi como se não nos tivéssemos separado. Ele continuou a me proteger. Lembro-me de que uma vez usei uma palavra qualquer de gíria, cuja origem maliciosa eu ignorava. E Leopoldo: “Não diga mais essa palavra.” “Por quê?” “Mais tarde você vai entender”, disse-me ele.

No terceiro ano de ginásio, minha família mudou-se para o Rio. Só vi Leopoldo mais uma vez na vida, por acaso, na rua, e como adultos. Passáramos agora a ser dois tímidos que viajaram na mesma condução sem quase pronunciar uma palavra. Éramos impossíveis de outro modo. Leopoldo é Leopoldo Nachbin. Eu soube que no primeiro ano de engenharia resolveu um dos teoremos considerados insolúveis desde a mais alta Antiguidade. E que imediatamente foi chamado à Sorbonne para explicar o processo. É um dos maiores matemáticos que hoje existem no mundo.

Quanto a mim, choro menos.

Clarice Lispector

Mas há vida

Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.

A descoberta do mundo. Clarice Lispector.